quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sem dar mole para a solidão




"As pessoas têm amigos virtuais, se encontram pela rede e, em casa, afundam-se numa poltrona em frente à televisão"

 

Elaine Tavares

 

Já faz um ano que dobrei o cabo dos 50 e, talvez por isso, por já ter vivido tanto, a gente vai ficando cheia de melancolia. O tempo se expande, as coisas mudam muito rapidamente e quando vem o fim da tarde, nos surpreende emaranhada em lembranças passadistas. Outro dia fiquei assim depois de ler um correio eletrônico de uma amiga do meu pai, uma adorável senhora de mais de 80 anos. Pois ela é uma mulher ligada no tempo, vive conectada na internet, espalhando e recebendo informações. Acredita que as coisas modernas são conquistas de todos e que ninguém deveria ter de abrir mão delas.

Quando a visitamos há cerca de dois anos, ela nos recebeu com um churrasco gordo – típico da fronteira gaúcha – e sua habitual energia. Falou mal dos políticos e lembrou que lá, para os lados de Uruguaiana, quando alguém dava um passo errado ou se mostrava bandido, era costume se tocar o vivente campo afora com uma tocha acesa, cutucando a bunda. “É o que tínhamos de fazer com esses vagabundos que não cumprem as promessas: tocar a tocha acesa e fazer sair num carreirão”.

Ontem recebi um correio dela, e vinha melancólico, como eu. Falava da alegria que era, nos tempos antigos, de se sair de casa e fazer visitas aos vizinhos e parentes. A família se arrumava, a gurizada botava sapato novo, e lá iam todos, “a pezito no más”, para uma visita familiar. A vida se fazia em comunidade, as pessoas se conheciam. Nas ruas pacatas das cidadezinhas, quando a noite vinha, nas primaveras e verões, as famílias sentavam à calçada enquanto o piazedo brincava pela rua afora, bem à vista dos pais. Ninguém tinha medo de sequestro relâmpago ou de qualquer outro perigo externo. O máximo que se temia era a “velha da trouxa”, um tipo de mito que os pais inventavam para que as crianças não fossem muito longe.

Se era inverno, tempo de muito frio e vento gelado, a hora comunitária acontecia depois do almoço. O povo saía para a frente da casa, a comer bergamota e fuxicar, lagarteando (tomando sol). Os vizinhos se conheciam intimamente e todos cuidavam de todos, porque a vida se fazia em partilha e comunhão.

“Hoje, os mais novos são formados em solidão”, diz Elza. Não há mais saídas em família. Os amigos se telefonam e se convidam para sair. Nunca para entrar. Não há jantares nas casas uns dos outros, ninguém se visita. Os encontros são feitos em bares, restaurantes, campos neutros, descomprometidos, impessoais. As pessoas têm amigos virtuais, se encontram pela rede, trocam e-mails e, em casa, afundam-se numa poltrona em frente à televisão. Nas ruas há o medo, ninguém mais senta às calçadas, as crianças brincam nos plays. E nas gavetas dos armários proliferam os alprazolans (drogas químicas), porque, mesmo diante dessa realidade, é uma obrigação social que a pessoa seja “felizinha”.

As lembranças de Elza, e minhas também, são de um tempo outro, quando o sistema capitalista ainda não tinha aprofundado suas raízes no nosso país. Agora, diante do quadro de dependência econômica e superexploração do trabalho – típicos do capitalismo dependente - quem tem tempo para sentar às calçadas, comunitariamente, a contar histórias? Há que estar o tempo todo a trabalhar, ganhar dinheiro, para comprar mais, e mais, e mais. A roda do consumo girando loucamente, inclusive no que diz respeito às pessoas. Aquele que consegue manter um amigo por mais de cinco anos é quase um herói. As relações são fluidas, supérfl uas, descartáveis.

Elza, que é otimista, não choraminga. Ela analisa seu tempo, fala com saudade do que já passou, mas afugenta a tristeza. “Esse é um tempo novo. Haveremos de encontrar caminhos. Mas que há muita solidão, isso há”. E tem horas que dói! Mas a solidão de que fala não é simplesmente essa de se estar sozinho no meio do nada. É a triste solidão de estar vazio, de não ter mais sonhos, projetos, essas molas que nos tocam para frente, a utopia. A certeza aparentemente absurda de se olhar um campo vazio e saber que ali nascerão flores. Assim andamos nesses tempos sombrios. Com olhos visionários, a vislumbrar o que ainda virá. E o que nos faz andar é isso mesmo: a certeza de que virá!

 


Elaine Tavares é jornalista.
Texto extraído do Brasil de fato.