quarta-feira, 9 de março de 2011

"Passeio Socrático"

"Se você não quer ser esquecido quando morrer, escreva coisas que vale a pena ler ou faça coisas que vale a pena escrever."
( Benjamin Franklin )


 
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Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na
pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.


"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.


O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo:
refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e
não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor
simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que
se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.


É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais -,
manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e
a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido
litúrgico.


A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte.
Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha,
usar lindos talheres, apresentar os pratos com esmero e,
sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais.


Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano
comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.


Marx já havia se dado conta do peso da geladeira.


Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o
valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos
bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós".


O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores,
somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens
simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social.


Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da
pobreza e à cultura da exclusão.


Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas,
tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa
interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma
árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.


Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega,
uma jóia?
Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na
sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.


Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e
sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode
ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso
estilista; a gata borralheira transforma-se em Cinderela...


Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal
nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita
unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois
a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um
espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados
desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão,
infelicidade.


Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é
alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também
objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não
é ela: bens, cifrões, cargos etc.


Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são
desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.


Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o
vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de
vizinhança, como ainda ocorre na feira.


Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada
de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio
é compensada pelo consumo supérfluo.


"Nada poderia ser maior que a sedução" -diz Jean Baudrillard- "nem mesmo a
ordem que a destrói".


E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da
cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.


Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e
contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando
se necessito algo.


"Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo.
Olham-me intrigados.


Então explico:


Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo.
Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas.
E, assediado por vendedores como vocês, respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".
*Frei Betto*

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Carlinhos Brown Social:
Carlinhos Brown teve uma infância pobre em recursos financeiros, no bairro do Candeal Pequeno, em Salvador. Mas a música sempre o aproximou das questões sociais. O músico criou vários projetos, programas e grupos musicais que modificam a vida de crianças e jovens carentes de Salvador. Através das mãos de Brown, já foram formados mais de 5.000 percussionistas que hoje se destacam tocando pelo Brasil e pelo mundo. Alguns em carreira solo, outros acompanhando grandes nomes da música mundial, como o grupo americano Stomp.
No Candeal, Carlinhos implementou o projeto “Tá Rebocado”, de urbanização e saneamento do bairro, que recebeu, em 2002, o Certificado de Melhores Práticas do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas/UN-Habitat. Em 1994, foi fundada, por Carlinhos Brown, a Associação Pracatum Ação Social. O lugar é um centro de referência em cursos de formação profissional em moda, costura, reciclagem, idiomas e oficinas de capoeira, dança e de temáticas ligadas à cultura afro-brasileira, além de uma escola infantil. Os projetos são parceiros de instituições importantes mundialmente, como os Ministérios da Educação e do Trabalho e a UNESCO.
Pela sua trajetória de engajamento com as questões sociais, Carlinhos Brown já recebeu diversos prêmios. Dentre eles, destaca-se o mais recente, recebido na Europa. Em 2008, Brown foi agraciado com o “12 meses, 12 causas”, prêmio promovido pelo Telecinco, mais importante canal de TV espanhol.